Inside Me

Devaneios...

quinta-feira, março 29, 2007

Feelings

Parara de caminhar. Havia perdido os passos macios, o andar charmoso que fazia com que as pessoas as olhassem em qualquer lugar que fosse. Sempre chamara atenção, mas agora parecia passar despercebida, parecia ter apagada, a luz que fazia seus olhos de esmeralda brilharem. Tentava de todas as maneiras, achar o porquê da ausência de seu sorriso, mesmo que sempre frustrantes. O vento soprava-lhe o cabelo sobre os olhos que se enchiam de lágrimas. Lágrimas, que deixava escorrer até seus lábios grossos apenas para sentir o gosto salgado, na verdade, qualquer gosto que conseguisse fazê-la livrar-se da dúvida entre estar viva ou morta.

segunda-feira, março 26, 2007

Luz

Observava como em camera lenta o que acontecia em sua volta, a expressão de cada rosto conhecido, o copo que fora derrubado deixando o refrigerante cair no chão. As gargalhadas agudas que escutava em sua volta, as frases da música que nunca ouviria e pela primeira vez pareciam fazer vibrar seu martelo. Via também a si mesma, as veias aparecendo sob sua pele quase transparente, o cheiro absorvido e exalado por seus poros da festa em que os outros participavam. O motivo da comemoração lhe parecia digno, mas não conseguia manter-se ali. Sentia olhos em seu corpo, atenção em suas palavras, espanto de alguns que não a viam há bastante tempo, mesmo sem entender o motivo. Reconhecera a todos, os mesmos rostos e piadas infames, questionava-se procurando respostas para sua aflição. Nunca se sentira muito bem naquele meio, mas mudara seu comportamento desde a última vez. Não sabia se agora era a pena por não ver evolução alguma em cada um deles ou a certeza de que nunca evoluiriam que a fazia dar o seu maior sorriso e ter todas as atenções daquela tarde.

sexta-feira, março 16, 2007

Toxoplasmose

Rodeadas de mentes impensantes, sentavam naquela mesa de moisacos indecifráveis, sob a luz que penetrava o espaço por entre as folhas, no entardecer. Sem muita convicção do que faziam e temendo o proibido, optaram pelo pouco que já sabiam ter em comum. Sentiam raiva e angústia a cada palavra dita, concordavam com cada vírgula e exclamação se expressando de modos diferentes. Os segundos pareciam apressados, as pessoas pareciam observá-las, mas continuavam quase estáticas dentro de suas cúpulas. Passearam por Londres e Amsterdan, pela Austrália e Escócia, foram de Vangogh à Jack Kerouac. Numa nuvem de infinitas possibilidades descobriram ser donas dos mesmos gostos e idéias. Uma completava a frase da outra sem querer, e os olhares surpresos se faziam constantes ao começo de qualquer nova oração. O medo se esvaía quando já estavam em territórios desconhecidos, o primeiro pensamento já era passado e os planos coincidentes se tornavam fatos naquele exato momento. Trocavam experiências e sabiam, cada uma dentro de si, que haveria muito mais do que aquelas horas, muito mais do que aqueles autores e cidades, que haveriam lágrimas com 9 proteínas a mais ou a menos, que brotariam espinhos ou não daquela muda que acabara de ser plantada.

quinta-feira, março 15, 2007

Emily

Na transição de atitudes de uma adolescente para uma jovem e de uma jovem para uma adulta, sentava como de costume em frente a tela inanimada da qual mais gostava. Reproduzia palvras ao som do prelúdio de Bach, olhava para as estrelas de plástico grudadas no teto de seu quarto, onde imaginava ser dona um céu só pra si. Céu que a consolava em dias tristes com seu brilho, contelaçãoes pras quais fazia pedidos, pontos de luzes coloridos que rodavam quando chegava em casa após tomar algumas taças de pró - seco. Interpretações abundantes e momentâneas a cada segundo, a cada ângulo sob o qual ousava olhar. Com seu constante sorriso de quem amava cada descoberta da vida, era possível vê-la com uma sorriso ainda mais verdadeiro e intenso quando falava da semelhança entre músicas e textos, suas duas paixões. Não compreendia muito bem como palavras lidas ou ditas por outro alguém se encaixavam perfeitamente em sua vida, ou em qualquer vida alheia. Pensava talvez que essa fosse a maior loucura da existência, ou que aqueles autores e compositores seriam os únicos loucos capazes de penetrar qualquer âmago. Questionava-se a toda hora, não acreditava na possibilidade de que tantas e diversas formas de sobrevivência passassem pelo mesmo sofrimento ou felicidade para se encontrar na mesma frase. E se compunha linhas, mesmo que não publicadas considerava-se louca também, uma insana na maré alta da praia de Ipanema, que insistia em atravessar a arrebentação com suas palavras.

segunda-feira, março 12, 2007

Inside Her.

Pensava ser a personagem de um livro, vivia como que na tentativa de construir mais um parágrafo de sua estória, mas se perdia na escolha de um tema por não saber optar diante à tantas balinhas coloridas. Se fascinava com a diferença entre as tonalidade e a acidez pertencente a cada sabor, e principalmente, ao efeito do qual eram capazes de induzir seu corpo. As vezes, achava não ser ela própria a dona daquelas atitudes, mas gostava disso, gostava de poder brincar ser quem quisesse ou pelo menos quem a possuísse pra ser com tanta intensidade, que despertava no dia seguinte na ansiedade de que outro alguém lhe contasse, porque a mesma, não conseguiria descrever um só fato. Seus olhos brilhavam ao escutar cada detalhe da noite anterior, gostasse ou não, pois sabia que momentaneamente o verdadeiro fora vivido. Imaginava que daí podia ter vindo sua vontade de preencher aquele caderno em branco, de contar a diferença do que viveu ou achava ter vivido, às cenas criadas por bocas alheias. Continuava com a caneta na mão, mas reprimia por não saber começar, por não saber escolher o que mais gostava se amava cada qual de um jeito.

Higgins

A visão da lareira, mesmo que inutilizada remetia aos dias frios que se encontravam há algum tempo atrás. Frios em graus Celcius ou frios de esperanças, não se sabia, não importava, mas lá estavam elas mais uma vez. Dentro do fim inacabado, dos sorrisos suspeitos, a visão de uma vida que caía, já amarela, na terra de outonos. O vento que insistia em dar movimento as cortinas refletia no pensamento comum da interpretação de um sonho, ou mesmo, da realidade na qual ousavam sonhar. Ousadia sim, por observar na imagem daquele espelho maquinarias e interiores tão diferentes que sabiam desembocar no mesmo desejo oculto sem ao menos uma palavra.

segunda-feira, março 05, 2007

Caramelo 2

Pra você que pintou a minha vida com as cores que não conhecia, que conseguiu fazer meu sorriso alcançar a extremidade das orelhas. Você, que me fez perder o eixo, com quem comecei a falar de sociedade e sem perceber terminei falando de amor. Pessoa que transformou meu cotidiano preto e branco no mais belo quadro de Dalí, que fez a tempestade se tornar o mais gostoso dos banhos, cheio de pocinhas das quais brincávamos de pular. Você, você mesma que continua na minha vida de outro modo, mas que do mesmo jeito consegue me fazer feliz apenas pela presença da ausência, da vida que foi, que é e da que vida que nos será.